Um dia desses estava sentindo tudo tão vazio! Sei lá... o mundo parecia desabitado, sem razão, sem alegria, sem felicidade, sem vida, tudo parecia não ter sentido, não ter graça! Eu estava completamente sem animo. A comida não tinha sabor, as flores não tinham cheiro, o vento não era gostoso de se sentir, e os animais não eram engraçadinhos, eram na verdade seres estranhos, animados como robôs, como coisas que se movimentavam, pelas quais eu não devia qualquer respeito ou cuidado.
Nesse dia eu não sentia vontade de caminhar, nem de sorrir, nem de falar, nem de olhar para nada. Nesse dia, tudo que eu fazia era realizado de forma vagarosa, desapressada, e sem vigor, como se eu pudesse matar o tempo, ou desperdiçar cada momento daquela existência inútil.
Nesse dia eu duvidei de DEUS! Odiei a Bíblia, e todas aquelas histórias que me pareceram tão patéticas e absurdas, fruto de mentes mentirosas.
Mesmo com o meu isolamento do mundo exterior, havia uma idéia estranha que rondava meus pensamentos me aconselhando a por um ponto final nesse desprezo pela vida. Essa idéia sussurrava baixinho: - Que tal o suicídio! Então eu ri dessa voz! Eu disse para ela: - fala sério! Sou curiosa, vou seguir essa jornada até o fim, e venha o que vier. E hoje estou aqui!
Depois daquele dia, outros dias tristes vieram, e outros ainda mais tristes, e outros desesperadores. Mas eu continuei caminhando, cada passo, cada dor, cada desesperança... difícil foi esconder a tristeza dos amigos, difícil foi esconder a amargura estampada no meu sorriso forçado. Mas naqueles dias, ninguém ousou me consolar, foram dias de solidão e auto-reflexão, dias em que só havia eu... e eu... e até com Deus, eu parecia ter feito inimizade.
Um dia eu avistei um Oasis, na verdade... era algo real, algo que me devolveu uma parte da alegria, mas essa emoção surgiu de forma desregrada, tudo ficou demasiadamente intenso e vivo e forte e iluminado e ... eu tive medo! Medo de perder aquela sensação, medo de que a vida pudesse novamente me dar uma rasteira, e tive medo da queda! E eu vivi cada momento com uma intensidade impar... em parte tudo era felicidade, em parte tudo era medo! Eu queria segurar cada minuto com minhas mãos e apertava cada momento com tanta força que aquilo se tornava um prazer doloroso. O medo de perder aquilo, me roubou a leveza de aproveitar o presente. Até que finalmente... eu perdi!
Daí a desesperança foi no limiar da minha sanidade, mil perguntas rondaram minha mente! Eu queria entender onde havia errado, eu queria realmente entender... e eu me consumi dia a dia a fim de galgar essa compreensão. Até que me dei conta de que um ano havia se passado; um ano de perguntas sem respostas. E o desanimo voltou e eu revivia a dor que outrora eu achava ter me livrado, a história se repetiu.
Lá estava eu... sem alegria, sem animo, sem prazer, sem vontade de viver. Mas... dessa vez... eu olhei para Deus, pois... quem mais poderia ter me resgatado da última vez... e dizia baixinho... – Pai... me leva hoje!
Até que uma alma que eu conheço, uma alma que vivia imersa num caos parecido com o meu, e a qual todos sabiam das suas dores, diferente das minhas que de algum modo eu ocultava, me puxou pelo braço e me convidou a conhecer um certo “homem de Deus”. A contragosto, desenganada dessas “fabulas”, fui... devido a insistência daquele ser que eu julgava muito frágil. Ela me deixou frente a frente com aquele homem pálido e sem vida e se foi. Alguns minutos de conversa, e após uma singela oração, eu descia as escadas me despedindo... e pouco a pouco, a cada degrau o sol voltou a brilhar. Me recordo que ele falou: - existe o mundo físico e o espiritual, mas devemos ter cuidado, o que precisa saber é que JESUS TE AMA.
Engraçado, JESUS TE AMA, achava essa frase tão patética e sem sentido, seria verdade, quem seria esse realmente... Sinceramente... eu não sei! Só sei que... eu tinha duas opções a fazer... continuar meus questionamentos... ou... simplesmente viver. Sabe... quando se esta imerso ao caos, a lei da sobrevivência fala mais alto.
Mais um ano se passou! Um ano agora sem questionamentos, sem metas, sem expectativas, sem rumores de desejo de morte... um ano do qual eu passei a ver as cores novamente, e me deliciei com as coisas simples que sempre estiveram ao meu alcance, mas que as sombras da minha alma não me permitiram apoderar.
Me deliciei com o lindo céu do entardecer, com o canto dos pássaros pela manhã, com uma bola de sorvete deliciosa, que era vendida muito barato, numa sorveteria perto de minha casa, era um achado! Com a água que massageava todo o meu corpo, enquanto eu nadava numa piscina pública de água mineral, na qual o acesso era fácil. E assim... também trabalhei... para receber depois... mas plantei! E fui a igreja, e fiz amigos... e comi churrascos...
Contudo... tudo isso... ainda era uma forma de burlar a tristeza que em alguns momentos ainda se apresentava a mim, me acenando com a mão como quem diz: - Oi! Eu ainda estou aqui. Nesses momentos eu buscava ignorá-la, e dizia com minha alma, aquele Cristo que um dia me disseram que me amava: - até quando Senhor?
E... desse dia em diante... até que não demorou muito... E em um desses dias onde agente resiste sair de casa, e só um amigo muito insistente te vence... eu ... atrasada ... com cabelo anelado e unhas para fazer...tive um encontro com algo que poderia ser um novo Oasis, ou mais uma porta que só me faria trocar de cativeiro.
Engraçado... naquele dia finalmente... a tristeza chamada B.V.B.Z se foi...! E fantasiei, e delirei, como qualquer desafortunado que encontra um Oasis no deserto. E a alegria daqueles dias foi mais fantasia do que realidade. E cada vento do norte, parecia rumores de uma chuva de bênçãos. E a cada barulho ao fundo agitava-se em mim o anuncio da chegada de uma orquestra. E assim, dia após dia, eu esperei pelos fogos de artifício, dia após dia eu preparei a recepção daqueles convidados que nunca chegavam, vestida de roupas de gala, esperei alegremente!
O nome disso, é esperança... uma bengala para quem quer resistir a morte, se chama Esperança! E assim, esse ano chegou ao fim, iniciou de forma despretensiosa, e terminou com uma nova visão, com um desejo de conquistas, com vontade de plantar, com sonhos, pois quem espera... espera algo!
Mas a realidade é algo que não fala, grita! E já no inicio do ano seguinte, a realidade gritou comigo de tal modo que eu rasguei minhas vestes, despenteei o cabelo, e puxei os forros das mesas de modo a derrubar talheres e pratos e disse: - basta! Dei-me caneta e papel que agora quero escrever essa história.
Daí surgiu uma vontade imensa de lutar por dias melhores... de dar um giro de 180 graus na vida, de gerar mudanças, novo horizonte, transformação, colheita de uma nova realidade. Então orei, orei, orei e orei mais muitas vezes.... e eu perguntava: - Como fazer tudo isso? E a resposta foi bem clara: - Faça diferente!
Então eu relacionei tudo o que eu costumava fazer no meu cotidiano, e decidi reescrever de modo inverso... se dedicava muitas horas numa coisa que achava que devia me dedicar, passei a dedicar mais horas no que eu gostaria realmente de fazer... ao invés de ouvir imposições alheias de como devia agir... passei a ignorar e ouvir meu coração, e os lugares que eu trabalhava, as pessoas com as quais me relacionava, a igreja na qual eu frequentava... rompi com tudo, exceto com minhas mechas loiras.
Foram atitudes cegas, pois, fechei portas sem a certeza de que outras iriam ser abertas, e até do Oasis sai... deixei-o para trás, longe apenas dos meus olhos.
De repente, coisas começaram a cair do céu! Objetos de fato que eu precisava ganhei de presente. E uma porta da esperança se materializou na minha frente quando recebi as chaves de uma sala para trabalhar, só a sala! E viagens e passeios missionárias os quais eu não planejei, e sequer imaginei que participaria.
E para mim... tudo isso ainda pareceu pouco! E eu permaneci orando... até que... logo no último mês do ano, quando eu completo aniversário, me chateei! Pois eu me vi impossibilitada de realizar alguns caprichos, que ano após ano eu desejava e não podia por falta de condições.
Então eu escrevi tudo isso num papel e disse: - Deus! Eu gostaria de realizar ao menos isso. E no mesmo mês, recebi uma proposta que caso eu tivesse disposta a aceitar, me permitiria realizar esses meus pequenos desejos. E não era lá uma proposta maravilhosa, resisti em aceitar... esperei que alguém dissesse não vá... mas todos diziam vá... Então eu disse sim! Disse sim como se fosse a grande chance da minha vida! E quem ouviu o meu “sim”, ficou tão feliz que também disse “sim”, e fui contrata em dezembro para trabalhar, sem a exigência de abandonar a sala!
Hoje em dado momento meu coração rompeu, e águas submergiram meus olhos até que lavou meu rosto e mãos. Era a saudade do Oasis que eu havia deixado para trás, então resolvi escrever.
Estou ansiosa para plantar! Mas... não consigo encontrar as sementes certas para o tipo de solo que eu tenho! Não sei ao certo o que plantar, mas quero plantar com pressa, pois quanto mais cedo plantar, mais cedo colher! Se eu plantar sementes excelentes, terei frutos excelentes! Se plantar o fruto certo, farei um bom negocio!
Sabe como se chama isso? Vontade de viver! E tudo começou com as pedras que foram lançadas em mim pela vida. Pedras que sem duvida nenhuma me machucaram, e que deixaram cicatrizes as quais o tempo amenizou a profundidade, mas não apagou.
Pedradas! podemos deixá-las no chão e continuar a caminhada, eu chamo isso de indiferença. Lançar de volta, eu chamo isso de revolta. Fazer uma forca, eu chamo isso de desistir da vida. Fazer um muro, eu chamo isso de isolamento, de medo de viver, de distanciar-se dos outros. Colocá-las num saco e carregá-las para sempre, chamo isso de amargura.
Observando tudo o que passou, penso que optei por acomodá-las debaixo de meus pés, isso pouco a pouco, porque posso ver algo além do que via, o meu campo de visão parece ter sido ampliado, acho que estou em cima de uma pequena montanha.
Patrícia Lima
22.12.09

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