segunda-feira, 25 de outubro de 2010

CHEIA DE DOR

          
         Hoje o sexo tem sido banalizado. As pessoas são vistas como mercadorias, até por elas mesmas. Uns dizem:- olha eu tenho pernas grossas, outros dizem:- tenho músculos bem definidos: umas dizem:- sou bem empregada e até que não sou feia. Outros dizem ganho tanto por mês.  Enfim, a apologia ao corpo é uma forma de vender e comprar, e um ajuste de vontades, e quando os dotes físicos não podem mais servir de moeda de compra, então se passa para o dinheiro em espécie mesmo. Não se busca conhecer a personalidade, nem o caráter. Não se busca unir as afinidades. Não importa fazer o coração doer, sentir um suspiro mais profundo, ficar com as mãos tremulas, e ter a sensação de que a sua vida acabou de começar. Agora, analisa-se o desejo por si só. Ainda que ele não exista no momento. Olha-se para um corpo, como para um prato de um restaurante. Come-se com os olhos primeiramente, sente o prazer por analogia ou pura e simples imaginação. Depois se analisa o valor que cada prato pede, e o preço que você esta disposto a pagar. Enquanto isso, o coração vai ficando cada vez mais frio, pois objeto não tem sentimentos, apenas utilidade, e muitas vezes essa utilidade tem vida curta.
É mais fácil se apegar a carreira profissional, se apegar aos bens adquiridos, ao bicho de estimação. Porque estas coisas parecem mais estáveis, você sabe que para manter-las com você basta um esforço pessoal. Ninguém quer se arriscar a sofrer, se arriscar a dizer aquele antiga frase dos apaixonados, quando decepcionados, ou mesmo quando vivenciando algum mal entendido na relação: -Infeliz, eu fiz tudo por ele(a), dediquei a minha vida, entreguei meu coração - Parece letra de novela mexicana- mas quem foge dessas paixões, para viver relacionamentos que não atingem o coração. Se guardam das lagrimas é verdade, mas também se guardam das emoções.
A loucura dos tempos modernos é tão grande, que a corrida em relação as novidades do mercado, está entrando na esfera dos sentimentos. O que reforça ainda mais a idéia de que as pessoas estão sendo vistas como mercadorias. Quantas moças e rapazes, não se desfazem de um relacionamento cheio de amor, e cumplicidade, tão somente pela curiosidade em experimentar o novo? Não se busca mais a cara metade, se busca agora, pedaços de alguma metade.
 Em uma você encontra os olhos, noutro você encontra uma bundinha perfeita. Uma é legal e engraçada. O outro é rico e bem sucedido. A próxima tem muitas amizades influentes, o seguinte tem uma ótima família. A da semana passada beija bem, o da semana retrasada faz um sexo gostoso. Uma é estudada, outro tem bom emprego, uma é bonita, um outro é charmoso, uma chama a atenção dos amigos, o outro é amigável com todos. Mas... com quem ficar? Oras, que pergunta mais insana, com todos, ou seja, com nenhum. Este é o prazer da mercadoria, nunca basta, nunca supre, sempre mais, mais e mais....nunca é, e nunca será o suficiente, porque o mercado sempre tem mais para oferecer.
Vamos às compras? O que você deseja para hoje? Ou melhor, o que você está podendo levar hoje? Quanto ainda te resta?... Agora vamos para o outro lado da faceta. Quanto você está custando? A mercadoria que você está vendendo é boa mesmo? Não..., acho que não vou levar..., encontrei uma oferta melhor, obrigada.
No troca – troca, ora você sai com a vantagem, ora não. Mas e no fim, será que você sairá no lucro? Será que isso tem fim? Perguntas simples, as quais revelam que os relacionamentos estão cada vez mais escassos, a demanda é para a relação de mercancia, para uma negociação.
 Isso tudo é revoltante, pois o homem ganhou o direito a vida, e se sujeita a ser algo morto. O que revolta mais ainda, é saber que os que optam por terem vida, não sabem a princípio quando estão sendo vistos como seres vivos, ou quando estão sendo visualizados como mercadoria. Para os brutos, não faz diferença alguma, pedra lascada não sente dor, mas... machuca.
07/04/06
Patrícia Lima






Nenhum comentário:

Postar um comentário